terça-feira, 9 de novembro de 2010

Minha dose semanal de morfina.

O tempo era curto como de costume, desajeitados nós procuramos minhas coisas que estavam espalhadas pelo quarto e colocamos tudo em minha bolsa verde-musgo, fechei o ziper rápidamente, o barulho causado por esse movimento provocou-me um leve arrepio em toda espinha, o aperto em meu peito era o dê sempre, nessa hora a angústia costumava cegar-me. Estava tudo pronto para minha partida, mas sorrateiramente virei-me para tráz, meus olhos agora quase marejados percorreram o quarto, era aquela imagem que eu queria eternizar em minha mente, aquela bagunça toda, roupas espalhadas pelo chão, colheres sujas de sorvete, cobertores emaranhadas ao pé da cama, copos com vestigios de refrigerante. Aquilo era para mim a melhor parte da semana. Derrepente sua voz aveludada e macia surpreendeu-me: -Você esqueceu alguma coisa? -Não! Respondi rápidamente. A verdade era que eu não esquecia nada, mas deixava ali um pedaço de mim e grande parte de minha alegria. Percebendo minha expressão dolorosa, seus braços envolveram-me em um abraço, e seus lábios encostaram em minha testa e sussuraram baixinho:
-Sempre estarei contigo, e você sabe disso. Aquilo tudo para mim era como uma morfina, letal, mas que me acalmava.

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